Contos: 2 Malas, 2 Minas e 1 Tornozelo

Henrique Braz Rossi (2009)

 

Meus olhos já não abriam mais, apenas suavemente deitavam e repousavam por alguns minutos. Meu descanso era quebrado por passos fortes, barulhos ou pessoas falando ao meu lado. Nunca pensei que um banco de rodoviária fosse tão confortável. Preocupado por estar só, mantinha minhas coisas sempre ao meu lado. Carregava uma mochila grande e outra pequena abarrotadas de roupas, livros e cd´s. Véspera de carnaval é uma loucura. Feriadão prolongado e todos querem sair de São Paulo para descansar ou curtir em outro lugar. Eu mesmo queria apenas entrar no meu ônibus e dormir um pouco com tranquilidade. Ali não era o lugar mais seguro de estar, porém, tinha que esperar mais 2 horas para o embarque.

“Vamos lá, acorde!” pensava enquanto estapeava meu rosto.

Tinha uma mega visão de todos do salão de espera. Sentei-me na lateral, onde via o corredor, a entrada dos banheiros, uma parte dos telefones, a cafeteria, o relógio e a escadaria para as plataformas. Esse era meu mundo por 120 minutos. Pelo corredor malas com rodinhas gritavam pela pressa de seus donos. Não sei como uma pessoa pode carregar tanta coisa. Aliás, se não for mala, são fardos de lençóis esturricados amarrados com cordas.

Esticar minhas pernas compridas era arriscado. Cansava-me ficar recolhido e sem condições de levantar e esticar as costas. Observar aquele cafezinho com pão de queijo, quentinhos, era um martírio. Dava para ver a fumacinha saindo das xícaras e do pãozinho todo convidativo. Se fosse, perderia o lugar, se não fosse… continuaria ali, parado, com fome até dar o tempo de embarque.

Eis que duas moças, que pelo sotaque eram do interior da Capital, sentaram ao meu lado e comentavam sobre a cafeteria e o pãozinho. “Será que é bom e limpo?”, uma delas indagou. Aí, não aguentei e disse: “Limpo eu não sei, mas o cheiro é bom demais…”

Riram pelo menos. Disse bem espontâneo, talvez foram palavras direto do meu estômago.

“Você já comeu?”, perguntou-me a morena. “Ainda não, mas estou namorando aquele pão de queijo desde que sentei aqui, mas sozinho e cheio de malas nem fui saciar essa vontade.” Nessa hora meu sono já era passado. Agora além de apenas observar, tinha com quem conversar. Suzane e Leica eram duas irmãs, uma recepcionista de uma empresa de seguros e a outra auxiliar de uma farmácia, respectivamente. Estavam indo para casa de seus pais no interior paulista. Disse que também ia para o interior curtir um descanso.

Leica se prontificou ir na cafeteria, e podia me trazer algo. Fiquei agradecido e aceitei, já que meu estômago ecoava seu vazio. Sua irmã levantou-se e enquanto tirava sua carteira do bolso da calça, repentinamente um moleque arrancou-lhe da mão e, em disparada, saiu em direção as escadarias. Todo apressado e tomado de adrenalina, fui atrás do meliante. Tentei alcançá-lo, mas o danado era rápido e descia aquelas escadas feito um bicho em desespero. Na área de embarque, desviava das pessoas com incrível habilidade, eu esbarrava nas malas e em tudo que estivesse a frente. Por fim, o danado sumiu com a carteira da moça.

Esbaforido e sem ar, retornava o “super-herói” sem o desfecho vitorioso. Pensava nas tristeza daquelas belas irmãs que, em um ato gentil, tiveram seu dinheiro tomado. “Acontece!”, pensei.

E realmente aconteceu mesmo, quando cheguei ao lugar onde estava sentado eis minha surpresa. Onde estavam as meninas e minhas malas? O ar já havia recuperado, mas meu coração disparou em ver o vazio. “Como sou trouxa!” – esbravejei em tom alto. “Que rasteira tomei, devia ser tudo armado e cai feito um idiota… e agora?”

Todos no saguão de espera me observavam mudos. Nessa hora nada sabiam, viam ou falavam. Parecia uma barata tonta, sem saber se ia procurar as moças, a polícia ou se tomava meu café da manhã. Pelo menos a passagem e meu dinheiro em meu bolso continuavam. Mas e minhas coisas? Iria viajar somente com a roupa do corpo? “Calma, calma.. pense.” Sai então a procura do moleque e das meninas, uma hora iria encontrá-los juntos ou separados. Esse tipo de quadrilha não costuma ir muito longe, mesmo em uma rodoviária enorme como a de São Paulo. Percorri todos os corredores aflito, fitando rostos e tipos. A cada mochila parecida com a minha, perseguia a pessoa até ver a cara ou desencanar que não era a minha. Entrei nos restaurantes, lanhouses, banheiros e lojas. Descia e subia aquelas escadas rolantes incansavelmente. Queria achar aquelas duas ladras a qualquer modo. Parei para descansar em uma das escadarias de embarque, quando avistei o moleque andando calmamente atrás de um senhor. Tentei gritar, mas nada saiu. Desci ferozmente aqueles curtos degraus já imaginando agarrar aquele pescoço franzino e tentar recuperar minhas malas. Cegamente tropecei em diversas malas e cai sobre algumas pessoas. Nesse afoitamente torci meu tornozelo drasticamente, não consegui ficar de pé. Inconformado com minha nova perda e a dor latente, pedia desculpas explicando o ocorrido. Sem minhas malas, sem tomar café e com dor, o que me esperava? Foi ai que percebi que aquelas pessoas todas estavam já no embarque do meu ônibus. Minha busca cega durou quase 2 horas e ainda podia perder minha viagem. Aliás, tudo aquilo ali era uma viagem doida. Pelo menos tinha ainda 5 minutos para a partida. Com o círculo em minha volta, dois seguranças apareceram com as duas moças ao lado e minhas mochilas. Sentado no chão, ouvi os seguranças explicarem que assim que sai correndo para alcançar o ladrãozinho, elas pediram socorro e foram levadas para a delegacia da rodoviária. “Por isso que sumiram, e com minhas malas”, exclamei. “Mas foram eles que nos levaram”, indagou uma delas. “Ribeirão Preto das 11h30” ouvi uma voz alta na plataforma. “É o nosso”, disseram as irmãs . “Nosso?’ Pensei. Era também o meu. Comecei a rir e a me levantar com dificuldade para embarcar. As duas meninas surpresas com a coincidência, ajudaram-me na bagagem e assunto resolvido. Sem a carteira delas e com meu tornozelo torcido, entramos no ônibus.

Adivinha onde sentei?

 

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