Contos: Rumo a Ubatuba

Henrique Rossi (2010)

 

Feriadão é sempre bom sair para algum lugar fantástico. Geralmente paulista escolhe as praias, e para mim e meus amigos não seria diferente.Seria um encontro de amigos de sampa, pinda e taubaté em ubatuba. Regado a muita cerveja, música, truco e mulheres, ou seja, tudo de bom.

Eu e meu amigo Cacá estávamos incumbidos de comprar as passagens na rodoviária para a galera. Reunimos todos e eis que muitos não foram, apenas duas amigas que de última hora queriam participar da farra. Seria estranho ter amigas entre rapazes eufóricos em plena praia. Ninguém merece. Por bem de todos e da paciência feminina, aceitamos as donzelas, mesmo porque a idéia era elas serem as nossas cozinheiras.

Malas prontas, chinelos de dedos, toalhas, camisetas… enfim, coube tudo na mochila. O que esquecermos pegaríamos emprestado. Era nosso lema!

Na rodoviária, lotada como sempre, esperávamos a Lu e sua amiga atrasadas. Gente vai, gente vem, pessoas passam não vem ninguém. Demora considerável. Compramos quatro passagens, e por sorte todas de cadeiras perto. Ligamos para ver se a limosine delas havia furado o pneu ou o metrô saiu dos trilhos. Vai saber, em São Paulo acontece de tudo. Eis a resposta. Somente a Lu iria conosco, sua amiga desistiu. Também, ir com um bando de marmanjos para praia que nem conhece e, ficar três dias, é meio estranho.

Com essa notícia, o mais certo a fazer seria vender essa a passagem que sobrou. Quem disse que o guichê aceita?! Vendemos para um tiozinho estranho, que aflito tinha chegado atrasado, mas antes da Lu ainda. Nossa vingança maligna seria obrigar ela sentar ao lado daquele senhor, só de pirraça.

Já estávamos embarcando, quando ao longe vimos a dona Lu correndo aflita. Toda atrapalhada com malas, mochilas e seu violão. Quem disse que mulher leva pouca coisa? Eram só três dias e em uma praia, pelo tamanho da bagagem parecia que iria para Europa de férias. E ainda o violão foi com ela no banco. Por nosso azar, o tiozinho entrou antes no ônibus e ela viu onde iria sentar e trocou de lugar com o Cacá.

Ônibus lotado, todos ansiosos pela praia e eu cansado querendo dormir. Já estava escurecendo quando entramos na estrada. Nossa amiga era uma pilha só. Contava sorridente os detalhes de sua saga para arrumar a mala, pegar o metrô e correr para a plataforma. Um verdadeiro roteiro de como se atrasar e deixar nervoso seus amigos. Eis para alegria de poucos e tristeza de muitos, saca seu violão para mostrar as novas músicas que aprendera. Na verdade até que ela tocava com harmonia, mas a voz, era para acordar até defunto enterrado a muitos palmos. Durante alguns minutos agüentamos, isto é, ouvimos sua cantoria. Mas o Cacá nem sempre era tão calmo como eu, e em súplicas chorou o desfecho do show. Até algumas pessoas que estavam nos bancos de trás riram e pediram mais músicas. Acho que o show era de comédia e não musical. Lu me deu o violão e comecei a tocar repertórios nacionais. Até que na descida da serra, entoada pelo “chove lá fora”, do Lobão, Cacá pediu para continuar tocando mas sem cantar. Eis a surpresa. O ônibus inteiro cantava em coro os refrões. Que maravilha! O sucesso estava garantido para a viagem inteira. Embalamos outras canções que foram acompanhadas com a sonoridade noturna da estrada.

“15 minutos”, disse nosso motorista na parada. Ufa, era um descanso para o artista, pois cantar e tocar no escuro desgasta. Lu não quis descer, estava com sono e iria cochilar mais um pouco. Descemos aclamados pelo nosso público e com pedidos de outras músicas. Éramos os astros da viação litorânea. Até duas lindas garotas nos abordaram dando parabéns e pedindo algumas do Pink Floyd, o que dizer? Sim, vamos tocar. Mas quem sabia as letras?

Entramos na lanchonete como reis do pedaço, calmamente fomos comer espetinhos de frango e tomar algo gelado. Percorremos o ambiente, vimos um pouco de novela, conversamos com a balconista, pegamos duas garrafas de água, pois precisava amaciar a voz, e saímos para retornar ao ônibus.

“Ta calmo aqui ein”, comentou Cacá. “Pois é, parado e sem ninguém”, retruquei. “Oras, cadê nosso ônibus?”, pensamos juntos. Pois é, acredita que nos deixaram para trás? Como foram nos esquecer? Éramos a trilha sonora da viagem, o sossego e paz para todos descansarem suas mentes. Os astros do “busão”. E a Lú? Vai acordar em Ubatuba sem seus amigos ao lado. O que será dela? “Eeeiii ! Seus comédias. Vamos embora!” Era a Lú gritando da janela do nosso ônibus bem na estrada. A emoção foi tão grande que corremos para a porta da esperança. Em aplausos, nossa entrada triunfante e vergonhosa, era um alívio. Realmente o ônibus tinha ido embora e, se não fosse a Lu ter acordado, iríamos ter que cantar muito na parada até conseguir um troco para pegar outro ônibus rumo a Ubatuba. E advinha onde sentei? Do lado do tiozinho.

 

Texto do livro “Amizades Antigas, Lembranças Recentes”

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